Em resumo: congelar sêmen antes da quimioterapia permite guardar espermatozoides antes de um tratamento que pode prejudicar sua produção. A preservação deve ser discutida com a equipe oncológica e de reprodução, sem adiar o tratamento por conta própria. Ter material armazenado amplia opções futuras, mas não assegura o nascimento de um filho.
Receber um diagnóstico de câncer costuma concentrar a atenção no tratamento imediato. Ainda assim, perguntar sobre fertilidade faz parte do cuidado. Não é necessário já ter decidido ter filhos para conversar sobre o assunto.
O início do Novembro Azul oferece uma oportunidade para incluir o planejamento reprodutivo na conversa sobre saúde do homem. Aqui, o foco é a preservação de espermatozoides diante do tratamento oncológico, e não o rastreamento de câncer de próstata.
Por que conversar antes de começar o tratamento?
Alguns tratamentos podem comprometer a produção de espermatozoides de forma temporária ou persistente. O risco varia conforme a doença, os medicamentos, as doses e outros tratamentos associados; não existe uma previsão única para todos os pacientes. A diretriz AUA/ASRM recomenda discutir esses efeitos antes da terapia potencialmente prejudicial à fertilidade. [2]
Além disso, o próprio câncer pode estar associado a alterações seminais anteriores ao tratamento. A avaliação não deve partir da suposição de que o espermograma estava normal. No câncer testicular, a EAU recomenda organizar a preservação antes da cirurgia quando viável, sem atrasar indevidamente o cuidado oncológico. [4]
Uma pergunta prática para levar à consulta é: “O tratamento planejado pode afetar minha possibilidade de ter filhos biológicos, e há tempo seguro para avaliar a preservação?”.
Como funciona o congelamento de sêmen?
A criopreservação de sêmen ejaculado é uma técnica estabelecida para pessoas que já produzem espermatozoides após a puberdade. Em geral, a amostra é obtida por masturbação, analisada e preparada pelo laboratório para armazenamento. A ASRM orienta explicar a quantidade e a qualidade do material guardado e suas possibilidades de uso posterior. [1]
Quando o tempo e as condições clínicas permitem, podem ser coletadas várias amostras. Porém, a programação deve acompanhar a necessidade oncológica: não cabe ao paciente criar um intervalo por conta própria para atingir uma quantidade considerada ideal. [2]
Na conversa com o serviço, vale esclarecer:
- Qual é o prazo disponível antes do tratamento?
- Como receber as instruções de coleta e os resultados?
- Quem confirma que a amostra foi efetivamente armazenada?
- Como atualizar contatos e obter informações sobre a guarda?
- Quem coordena a comunicação com o oncologista?
Essas perguntas ajudam a transformar uma decisão abstrata em um plano compreensível, com responsáveis e próximos passos definidos.
E se houver poucos espermatozoides ou dificuldade na coleta?
Um resultado alterado precisa ser interpretado no contexto da doença e da urgência do tratamento. Poucos espermatozoides não significam automaticamente que a tentativa de preservação seja inútil. Por outro lado, a coleta não garante que haverá material adequado para guardar ou utilizar. [2]
Quando a pessoa não consegue ejacular ou não há espermatozoides no ejaculado, podem existir alternativas de obtenção assistida ou cirúrgica. A ASRM descreve a extração testicular em situações selecionadas, inclusive coordenada com procedimentos oncológicos. Isso exige avaliação especializada; não é uma etapa obrigatória para todos. [1]
Para entender os termos, veja as diferenças entre PESA, TESA, MESA e micro-TESE. As técnicas têm indicações diferentes e não devem ser tratadas como equivalentes.
Como os espermatozoides poderão ser usados depois?
O uso depende do material disponível e da avaliação reprodutiva futura. Podem ser considerados tratamentos como inseminação intrauterina ou fertilização in vitro. A qualidade após o descongelamento e a quantidade armazenada influenciam as opções. [1]
Guardar espermatozoides é diferente de realizar imediatamente uma fertilização. O planejamento pode ser retomado depois, com discussão sobre saúde, desejo reprodutivo e condições para utilizar as amostras. O artigo sobre quando a ICSI é necessária na FIV explica por que a escolha da técnica também precisa de contexto.
O que dizem as diretrizes
- ASRM: a coleta para preservação deve ocorrer preferencialmente antes dos tratamentos potencialmente prejudiciais à fertilidade. [1]
- AUA/ASRM: a recuperação da produção de espermatozoides após o tratamento varia; não deve ser prometida antecipadamente. [2]
- ASCO: quem tem interesse ou ainda está em dúvida sobre preservação deve receber encaminhamento e aconselhamento. [3]
- EAU: no câncer testicular, integrar preservação e tratamento é parte do cuidado, sem atrasar indevidamente a cirurgia. [4]
As recomendações orientam a conversa, mas não substituem a análise do caso. A indicação depende da avaliação individual.
Quando procurar avaliação
A conversa deve acontecer assim que houver planejamento de tratamento com possível impacto reprodutivo. A ASCO recomenda abordar fertilidade no diagnóstico e também durante o acompanhamento após o câncer. [3]
Para preparar a avaliação, pode ser útil reunir o tratamento proposto, a previsão de início, exames já disponíveis e as dúvidas sobre filhos no futuro. Se não houver tempo para reunir tudo, informe à equipe o que já sabe e peça orientação sobre o próximo passo.
Não suspenda medicamentos, não remarque sessões e não atrase cirurgia por decisão própria para tentar preservar sêmen. A prioridade e a viabilidade precisam ser definidas pelas equipes responsáveis.
Perguntas frequentes
Preciso ter uma parceira ou um plano de gravidez agora?
Não é necessário ter uma decisão reprodutiva fechada para receber aconselhamento. A ASCO inclui explicitamente as pessoas que ainda estão em dúvida. A consulta serve para compreender alternativas, sem impor a obrigação de preservar ou de ter filhos. [3]
O que deve ficar combinado sobre as amostras?
O aconselhamento deve esclarecer guarda, comunicação com o serviço e decisões sobre o destino do material. O parecer ético da ASRM destaca a importância do consentimento informado e da documentação dessas escolhas. No Brasil, os termos precisam respeitar as normas locais aplicáveis; uma orientação estrangeira não substitui essas regras. [5]
Adolescentes podem receber essa orientação?
Sim. A conversa deve respeitar o desenvolvimento e envolver o adolescente e seus responsáveis. É essencial diferenciar técnicas estabelecidas de procedimentos experimentais: a ASCO considera experimental a preservação de tecido testicular antes da puberdade, restrita à pesquisa clínica. [3]
Já comecei a quimioterapia. Ainda devo perguntar?
Sim, mas não se deve presumir que coletar durante ou logo após o tratamento seja equivalente à coleta prévia. A ASCO alerta para possível maior dano genético aos espermatozoides nesse período. A decisão sobre avaliação e eventual coleta precisa ser individualizada com as equipes. [3]
Posso mudar de ideia sobre ter filhos?
O aconselhamento deve respeitar valores e preferências, inclusive a incerteza sobre parentalidade. Preservar material não cria uma obrigação de utilizá-lo. Se os planos mudarem, procure o serviço para revisar as opções e os documentos de consentimento, em vez de simplesmente interromper o contato. [5]
Imagem de capa ilustrativa gerada por IA; não representa instalações do consultório ou da clínica.
Dr. Igor Faria Dutra – Médico, CRM-RJ 52.87111-7 | RQE 29693. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.
Referências
- Practice Committees of the American Society for Reproductive Medicine and the Society for Reproductive Endocrinology and Infertility. Fertility preservation in patients with medical indications: a committee opinion. Fertil Steril. 2026;125:247–259. Documento ASRM.
- American Urological Association; American Society for Reproductive Medicine. Diagnosis and Treatment of Infertility in Men: AUA/ASRM Guideline. 2020; amended 2024. Diretriz completa.
- Su HI, Lacchetti C, Letourneau J, et al. Fertility Preservation in People With Cancer: ASCO Guideline Update. J Clin Oncol. 2025;43(12):1488–1515. doi:10.1200/JCO-24-02782. PubMed e registro das erratas.
- European Association of Urology. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health: Male Infertility. Versão online consultada em 1 nov 2026. Diretriz EAU.
- Ethics Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Fertility preservation and reproduction in patients facing gonadotoxic therapies or gonadectomy: an Ethics Committee opinion. Fertil Steril. 2026;125:260–266. Parecer ASRM.

