Em resumo: a hidrossalpinge pode atrapalhar a fertilização in vitro (FIV), porque o líquido acumulado na trompa pode alcançar o útero e prejudicar a implantação. Confirmar o diagnóstico e discutir o tratamento antes da FIV faz parte do planejamento. Isso não significa que toda alteração nas trompas exija a mesma cirurgia.
Receber um laudo com essa palavra costuma gerar uma dúvida: se a fecundação acontecerá no laboratório, por que a trompa ainda importa? A resposta está na comunicação entre a trompa e a cavidade uterina. Entender essa relação ajuda a conversar sobre opções sem transformar um achado de exame em uma decisão automática.
O que é hidrossalpinge?
Hidrossalpinge é uma trompa dilatada pelo acúmulo de líquido, geralmente associada à obstrução de sua extremidade. Não é sinônimo de qualquer trompa obstruída. A localização do bloqueio e o estado do tecido tubário fazem diferença na investigação e no tratamento.
A ASRM descreve relação com inflamação pélvica prévia, peritonite e cirurgias anteriores. O nome no laudo, isoladamente, não determina quando o problema começou nem permite atribuir uma causa específica à pessoa. Também não substitui a avaliação do restante do aparelho reprodutivo.
Por que pode interferir mesmo quando a FIV contorna as trompas?
Na FIV, óvulos e espermatozoides são utilizados no laboratório, e o embrião é transferido para o útero. A passagem pelas trompas deixa de ser necessária, mas o ambiente uterino continua importante. Veja o contexto no artigo sobre FIV passo a passo.
A revisão Cochrane explica que o líquido da hidrossalpinge pode chegar à cavidade uterina e interferir na implantação. Por isso, contornar a obstrução não elimina necessariamente o efeito do líquido. A avaliação deve considerar essa comunicação, em vez de tratar a FIV como solução automática para qualquer alteração tubária.
Como confirmar o diagnóstico?
A investigação combina história clínica e exames de imagem. A histerossalpingografia avalia a passagem de contraste pelas trompas; exames ultrassonográficos também podem contribuir, conforme o achado e a técnica utilizada. A ASRM recomenda métodos de avaliação tubária escolhidos de acordo com o contexto clínico.
Um resultado de obstrução, sobretudo junto ao útero, pode precisar de esclarecimento: espasmo e fatores técnicos podem simular bloqueio. Já a laparoscopia não é um exame obrigatório para toda investigação de infertilidade. Ela pode ser indicada quando há uma razão clínica ou uma proposta de tratamento cirúrgico.
Leve à consulta as imagens, não apenas a conclusão escrita. Pergunte se há dilatação com líquido, qual lado está envolvido e se o achado realmente muda o plano proposto.
Quais tratamentos podem ser discutidos antes da FIV?
As opções incluem retirar a trompa afetada, procedimento chamado salpingectomia, ou interromper sua comunicação com o útero, por meio de oclusão tubária. O objetivo é reduzir a exposição da cavidade uterina ao líquido. A escolha considera anatomia, aderências, risco operatório e experiência da equipe.
O NICE recomenda oferecer salpingectomia laparoscópica ou oclusão para tratar hidrossalpinge antes da FIV. Quando a laparoscopia apresenta alto risco de complicações, considera a aspiração do líquido perto da coleta dos óvulos. A aspiração tem uma limitação importante: o líquido pode voltar a se acumular.
Na diretriz da OMS, a preferência por salpingectomia ou oclusão antes da FIV é uma recomendação condicional, com certeza muito baixa da evidência. Isso exige decisão compartilhada, considerando viabilidade e características do caso, e não uma cirurgia determinada apenas pela leitura deste artigo. A indicação depende da avaliação individual.
A cirurgia garante que a FIV dará certo?
Não. Tratar a hidrossalpinge não elimina os demais fatores que influenciam o resultado reprodutivo. A revisão Cochrane concluiu que a salpingectomia provavelmente aumenta a chance de gravidez clínica em comparação com não operar, mas não encontrou dados de nascidos vivos na comparação principal.
Essa distinção importa: gravidez clínica e nascimento são desfechos diferentes. Também havia informação insuficiente sobre eventos adversos. Uma recomendação de tratamento precisa considerar benefício provável, incerteza e riscos, sem transformar resultados de estudos em uma promessa pessoal.
O que dizem as diretrizes
- OMS: sugere salpingectomia ou oclusão antes da FIV em infertilidade tubária por hidrossalpinge, considerando aderências e viabilidade.
- NICE: inclui essas opções na orientação atual e reserva a aspiração para situações selecionadas de risco cirúrgico elevado.
- ASRM: diferencia reconstrução tubária de tratamento preparatório para FIV; a gravidade do dano e os demais fatores de infertilidade pesam na escolha.
- Avaliação global: identificar doença tubária não dispensa investigar ovulação e, quando aplicável, o parceiro masculino.
Quando procurar avaliação
Um achado suspeito de hidrossalpinge merece avaliação ao planejar gravidez ou tratamento reprodutivo. Segundo a ASRM, a investigação não deve ser adiada quando existe doença tubária conhecida ou suspeita. Não é preciso aguardar um prazo padrão de tentativas para discutir esse achado.
Organize dúvidas sobre diagnóstico, alternativas e consequências de cada procedimento. Se a proposta anterior era inseminação intrauterina, pergunte como o resultado tubário altera aquela indicação. Peça também que a equipe explique a sequência do planejamento: exames adicionais, eventual intervenção, recuperação e tratamento reprodutivo.
Uma conversa útil termina com clareza sobre o que está confirmado, o que ainda precisa ser esclarecido e qual decisão será tomada em conjunto.
Perguntas frequentes
Hidrossalpinge de um lado só também importa?
Sim. A ASRM descreve impacto sobre resultados da FIV mesmo quando apenas uma trompa apresenta hidrossalpinge. O achado unilateral também merece discussão no planejamento.
Toda trompa obstruída é uma hidrossalpinge?
Não. Obstrução descreve um bloqueio; hidrossalpinge envolve dilatação com líquido. O laudo e as imagens precisam distinguir essas situações.
Existe uma opção menos invasiva que retirar a trompa?
Existem alternativas, mas elas não são equivalentes em qualquer caso. Oclusão e, em situações selecionadas, aspiração entram na conversa conforme riscos e viabilidade. Pergunte por que uma opção foi recomendada.
Posso decidir só com o resultado do exame?
O exame é parte da decisão. Sintomas, cirurgias anteriores, outros fatores de infertilidade, preferências e riscos precisam ser considerados junto com as imagens.
O que devo perguntar antes de aceitar o procedimento?
Peça uma explicação do objetivo, das alternativas, dos riscos, das consequências para o projeto reprodutivo e do acompanhamento previsto. Solicite que dúvidas sobre o diagnóstico sejam esclarecidas antes de definir a conduta.
Referências
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Role of tubal surgery in the era of assisted reproductive technology: a committee opinion. Fertil Steril. 2021;115(5):1143-1150. PubMed.
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Fertility evaluation of infertile women: a committee opinion. Fertil Steril. 2021;116(5):1255-1265. PubMed.
- Melo P, Georgiou EX, Johnson N, van Voorst SF, Strandell A, Mol BWJ, et al. Surgical treatment for tubal disease in women due to undergo in vitro fertilisation. Cochrane Database Syst Rev. 2020;10:CD002125. PubMed.
- World Health Organization. Guideline for the prevention, diagnosis and treatment of infertility. Geneva: WHO; 2025. Diretriz.
- National Institute for Health and Care Excellence. Fertility problems: assessment and treatment. NICE guideline NG257. London: NICE; 2026. Recomendações sobre fator feminino.
Dr. Igor Faria Dutra – Médico, CRM-RJ 52.87111-7 | RQE 29693. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

