FIV passo a passo é uma forma simples de entender uma jornada que costuma parecer cheia de siglas, exames e decisões. A fertilização in vitro não é um único procedimento isolado: ela envolve preparo, estimulação ovariana, coleta de óvulos, preparo dos espermatozoides, fecundação em laboratório, cultivo embrionário e transferência do embrião quando há indicação.
Em resumo: a FIV costuma seguir etapas previsíveis, mas o plano muda conforme idade, reserva ovariana, espermograma, causa da infertilidade, histórico de tratamentos e segurança. O mais importante é saber o objetivo de cada fase e quais decisões realmente precisam ser individualizadas.
Quando a FIV costuma entrar na conversa?
A FIV pode ser considerada quando a avaliação do casal mostra que a chance de gravidez espontânea ou com tratamentos mais simples é baixa, quando há fator tubário importante, endometriose em contexto selecionado, alterações seminais relevantes, idade reprodutiva avançada, baixa resposta esperada ou falhas anteriores de tratamento.
Ela também pode entrar em situações específicas de preservação de fertilidade, uso de óvulos ou espermatozoides criopreservados, necessidade de investigação genética embrionária quando indicada ou planejamento reprodutivo de casais que precisam de técnica de reprodução assistida para formar família.
Isso não significa que FIV seja o primeiro passo para todo casal. Antes dela, a investigação precisa olhar para os dois lados: ovulação, útero, trompas, idade, reserva ovariana e fator masculino. Quando a dúvida central envolve idade e reserva, vale conectar a conversa com idade e fertilidade depois dos 35 e baixa reserva ovariana. Quando há fator masculino, conteúdos como azoospermia e micro-TESE ajudam a entender por que a estratégia pode mudar.
Como é o início do ciclo?
O início do ciclo costuma combinar consulta, revisão dos exames, ultrassonografia basal e definição do protocolo de estimulação ovariana. A estimulação usa medicações hormonais para tentar recrutar mais de um folículo no mesmo ciclo, sempre com monitoramento por ultrassom e, quando necessário, exames hormonais.
A diretriz ESHRE de estimulação ovariana para IVF/ICSI foi atualizada em 2025 e publicada em 2026, reforçando que o protocolo deve considerar resposta esperada, segurança, risco de síndrome de hiperestimulação ovariana, adesão e individualização. Em outras palavras: não existe um protocolo único que seja automaticamente melhor para todas as pessoas.
Na prática, o acompanhamento serve para decidir dose, tempo de estímulo e momento do disparo final de maturação. A meta não é “produzir o máximo possível” a qualquer custo; é buscar uma resposta útil e segura para aquele contexto.
O que acontece na coleta de óvulos e no laboratório?
Quando os folículos atingem critérios adequados, a equipe agenda a coleta dos óvulos. O procedimento é feito em ambiente apropriado, com sedação e punção guiada por ultrassom. Os óvulos recuperados seguem para o laboratório de embriologia, onde serão avaliados quanto à maturidade.
No mesmo período, o sêmen é coletado ou preparado a partir de amostra já criopreservada. Se houver azoospermia, cirurgia testicular prévia ou necessidade de técnica específica de obtenção de espermatozoides, essa etapa precisa estar planejada antes. Esse é um dos motivos pelos quais a avaliação masculina não deve ficar para o fim.
A fecundação pode ocorrer por FIV convencional ou por ICSI, em que um espermatozoide é injetado dentro do óvulo. A escolha depende do caso, especialmente da qualidade seminal, do histórico de fecundação anterior e da estratégia do laboratório. Depois disso, os embriões são acompanhados por alguns dias até a decisão sobre transferência, congelamento ou outras condutas.
A transferência embrionária é sempre no mesmo ciclo?
Não. A transferência pode ser feita no mesmo ciclo, chamada de transferência a fresco, ou em ciclo posterior, após congelamento embrionário. A escolha depende de risco de hiperestimulação, preparo endometrial, níveis hormonais, número e qualidade dos embriões, necessidade de teste genético quando indicado e segurança clínica.
O ponto central é que congelar embriões não significa, por si só, pior tratamento. Em muitos cenários, segmentar o ciclo permite transferir em momento mais adequado. Em outros, a transferência a fresco pode ser razoável. A decisão precisa ser explicada com clareza, porque essa é uma das etapas que mais gera ansiedade.
Diretrizes e revisões também ajudam a separar o que tem evidência do que virou “extra” de laboratório. Por exemplo, a diretriz NICE de 2026 recomenda transferência embrionária guiada por ultrassom, enquanto a diretriz ASRM sobre transferência embrionária não recomenda repouso no leito após a transferência. Esses pontos importam porque reduzem expectativas falsas e condutas que não acrescentam benefício claro.
O que dizem as diretrizes
- A NICE NG257, publicada em 31 de março de 2026, atualizou recomendações sobre investigação e tratamento de problemas de fertilidade e traz uma seção específica sobre procedimentos usados durante IVF.
- A ESHRE atualizou a diretriz de estimulação ovariana para IVF/ICSI, com recomendações sobre preparo, supressão hipofisária, gonadotrofinas, monitoramento, maturação final, suporte lúteo e prevenção de hiperestimulação.
- A ASRM descreve a transferência embrionária como etapa crítica da FIV e aponta boa evidência para transferência guiada por ultrassom e para não recomendar repouso no leito após a transferência.
- No Brasil, a reprodução assistida também deve respeitar normas éticas do CFM, incluindo limites e cuidados para uso das técnicas, criopreservação, doação e tomada de decisão responsável.
Quais decisões costumam ser individualizadas?
As principais decisões individualizadas incluem quando indicar FIV, qual protocolo de estímulo usar, quando disparar a maturação final, se a fecundação será por FIV convencional ou ICSI, se haverá transferência a fresco ou congelamento, quantos embriões transferir e se algum teste adicional realmente tem indicação.
Também entram nessa conversa fatores que não aparecem em uma tabela simples: tempo de infertilidade, idade da parceira, histórico de perdas gestacionais, cirurgias prévias, endometriose, síndrome ovariana metabólica poliendócrica, antes chamada de SOP, resposta a ciclos anteriores e condição seminal. O artigo sobre SOMP e fertilidade ajuda a entender por que metabolismo, ovulação e risco em reprodução assistida podem caminhar juntos.
A indicação depende da avaliação individual. O papel da consulta é transformar dados soltos em um plano compreensível, sem prometer gravidez e sem vender etapa extra como se fosse solução universal.
Quando procurar avaliação
Procure avaliação se o casal tenta engravidar há 12 meses sem sucesso, ou há 6 meses quando a mulher tem 35 anos ou mais. A avaliação deve ser antecipada se há ciclos muito irregulares, suspeita de obstrução tubária, endometriose, abortamentos de repetição, espermograma alterado, azoospermia, cirurgia testicular prévia, tratamento oncológico ou desejo de preservação de fertilidade.
Quem já recebeu indicação de FIV também pode procurar avaliação para entender o motivo da indicação, as alternativas e os próximos passos. Uma boa consulta deve explicar o que é obrigatório, o que é opcional, o que ainda é incerto e como os riscos serão monitorados.
Perguntas frequentes
FIV sempre começa com bloqueio hormonal?
Não. Existem diferentes protocolos de estimulação, e a escolha depende de idade, reserva ovariana, risco de hiperestimulação, resposta esperada e histórico de ciclos anteriores. O objetivo é adequar eficácia e segurança.
A coleta de óvulos é uma cirurgia grande?
Não costuma ser tratada como cirurgia de grande porte. É um procedimento guiado por ultrassom, feito com sedação e equipe especializada. Ainda assim, exige preparo, jejum, acompanhamento e orientação sobre sinais de alerta.
ICSI é melhor do que FIV convencional?
Não para todos os casos. A ICSI pode ser importante quando há fator masculino relevante, baixa fecundação anterior ou outras indicações específicas. Usar ICSI de rotina sem motivo claro não deve ser confundido com tratamento superior.
Precisa ficar de repouso depois da transferência?
As diretrizes não recomendam repouso no leito como estratégia para melhorar resultado. A orientação pós-transferência deve ser individualizada, mas repouso prolongado por medo de “perder o embrião” não é sustentado pela evidência.
Todo embrião precisa de teste genético?
Não. Testes genéticos embrionários podem ser úteis em situações selecionadas, mas não são etapa obrigatória de toda FIV. A decisão depende da história clínica, idade, número de embriões, objetivo do teste e limites da evidência.
Quantos dias dura uma FIV?
A estimulação ovariana costuma ocupar cerca de duas semanas, mas o tempo total varia conforme exames prévios, resposta ao estímulo, coleta, cultivo embrionário, congelamento e preparo para transferência. Quando a transferência é adiada, o processo completo se estende por mais tempo.
Referências
- National Institute for Health and Care Excellence. Fertility problems: assessment and treatment. NICE guideline NG257. Published 31 March 2026. https://www.nice.org.uk/guidance/NG257/chapter/procedures-used-during-in-vitro-fertilisation-ivf
- Ata B, Bosch E, Broer S, Griesinger G, Grynberg M, Kolibianakis E, et al. ESHRE guideline: ovarian stimulation for IVF/ICSI: an update in 2025. Hum Reprod. 2026;41(4):498-514. https://doi.org/10.1093/humrep/deag018
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Performing the embryo transfer: a guideline. Fertil Steril. 2017;107(4):882-896. https://www.asrm.org/practice-guidance/practice-committee-documents/performing-the-embryo-transfer-a-guideline-2017/
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.320/2022: normas éticas para a utilização das técnicas de reprodução assistida. 2022. https://portal.cfm.org.br/noticias/cfm-publica-atualizacao-das-regras-para-reproducao-assistida-no-brasil/
Dr. Igor Faria Dutra – Médico, CRM-RJ 52.87111-7 | RQE 29693. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

