Cada vez mais homens em idade fértil procuram clínicas e telemedicina para tratar sintomas como cansaço, baixa libido e dificuldade para ganhar massa muscular com reposição de testosterona. O que poucos sabem é que a reposição de testosterona e infertilidade masculina têm uma relação direta, bem descrita na literatura médica, mas raramente discutida antes do início do tratamento.
Em resumo: a testosterona aplicada de fora para dentro (injeção, gel, adesivo ou implante) quase sempre reduz ou interrompe a produção de espermatozoides, porque o corpo entende que já tem hormônio suficiente e desliga o estímulo que os testículos precisam para produzir sêmen. Por isso, as diretrizes de urologia e endocrinologia não recomendam testosterona isolada para quem deseja engravidar agora ou em breve. Na maioria dos casos a produção volta depois de parar o tratamento, mas pode levar meses, e às vezes mais de um ano; existem alternativas que tratam os sintomas sem desligar a fertilidade, desde que avaliadas por um médico.
Por que a testosterona de fora reduz a produção de espermatozoides?
A produção de espermatozoides depende de um comando hormonal que começa no cérebro: o hipotálamo libera GnRH, a hipófise responde com LH e FSH, e esses dois hormônios estimulam os testículos a produzir testosterona local — muito mais concentrada dentro do testículo do que no sangue — e a amadurecer os espermatozoides. Quando a pessoa recebe testosterona pronta, de fora, o cérebro mede a testosterona no sangue, interpreta que está alta e reduz a liberação de LH e FSH. Sem esse estímulo, a testosterona dentro do testículo cai, mesmo que o exame de sangue mostre testosterona normal ou alta, e a produção de espermatozoides diminui, podendo chegar a zero (azoospermia) em parte dos homens.
Testosterona de clínica é diferente de anabolizante para a fertilidade?
Do ponto de vista do eixo hormonal, não muito: o mecanismo de supressão é parecido, seja a testosterona prescrita para tratar hipogonadismo, seja usada para ganho de massa muscular sem indicação médica. A relação entre anabolizantes e espermograma zerado já foi tema deste blog; a diferença aqui é o contexto: a reposição costuma ser prescrita por um médico depois de hipogonadismo confirmado em exame, com dose, via de aplicação e acompanhamento controlados — o que não acontece no uso recreativo. Mesmo assim, testosterona exógena, prescrita ou não, tende a ter o mesmo efeito sobre o eixo que comanda a fertilidade.
Quem já faz reposição e quer ter filhos precisa simplesmente parar?
Não é tão simples, e a decisão não deve ser tomada sozinha. Interromper a testosterona de forma abrupta e sem acompanhamento pode trazer de volta os sintomas de testosterona baixa antes que a fertilidade se recupere. Para quem deseja engravidar agora, existem alternativas que mantêm a testosterona em níveis adequados sem desligar totalmente o estímulo testicular, como o uso de hCG isolado ou combinado com FSH, moduladores seletivos do receptor de estrogênio e, em casos selecionados, inibidores de aromatase. Essas opções só devem ser usadas sob orientação de um urologista ou especialista em reprodução, com exames específicos para cada caso — nunca por conta própria. Quem está em reposição e passou a considerar ter filhos deve levar essa informação ao médico responsável antes de qualquer mudança, para reavaliar o tratamento atual e planejar a transição com segurança.
Isso também pode causar azoospermia?
Pode. A azoospermia por testosterona exógena — ausência de espermatozoides no sêmen — é uma causa reconhecida e, na maior parte dos casos, reversível, diferente da azoospermia obstrutiva ou da falência testicular primária, que pode depender de micro-TESE para recuperar espermatozoides. Quando a causa é a testosterona externa, a conduta inicial costuma ser suspender o hormônio e, se necessário, usar medicação que reative o eixo hipotálamo-hipófise-testículo, acompanhando a recuperação com espermogramas repetidos ao longo do tempo. Procedimentos cirúrgicos de retirada de espermatozoide ficam reservados para quem não recupera a produção depois de um tempo razoável de acompanhamento.
O que dizem as diretrizes
- A diretriz AUA/ASRM sobre infertilidade masculina, atualizada em 2024, recomenda não prescrever testosterona isolada para homens que querem ter filhos agora ou em um futuro próximo.
- O guia de prática clínica da Endocrine Society sobre terapia com testosterona orienta perguntar explicitamente sobre desejo de filhos antes de iniciar o tratamento e evitar iniciá-lo em quem planeja engravidar em curto prazo.
- Revisões da literatura descrevem a testosterona exógena como um "contraceptivo masculino" funcional na maioria dos homens, geralmente reversível, mas nem sempre rápido: a recuperação costuma ocorrer em meses, podendo se estender além de um ano em alguns casos.
- Alternativas capazes de tratar sintomas de testosterona baixa preservando parte da produção testicular existem, mas exigem indicação e acompanhamento médico individualizados, nunca escolha de automedicação.
Quando procurar avaliação
Vale buscar um urologista ou especialista em reprodução antes de iniciar qualquer reposição hormonal se houver desejo de ter filhos nos próximos anos, e também antes de interromper por conta própria um tratamento já em curso. Quem já faz reposição e quer engravidar em breve deve levar essa informação à consulta, com exames hormonais e espermograma recentes em mãos; a indicação do melhor caminho depende da avaliação individual.
Perguntas frequentes
Testosterona em gel, adesivo ou implante também reduz a fertilidade?
Sim. O efeito depende da quantidade de testosterona que chega à circulação, não da forma de aplicação; gel, adesivo, implante e injeção podem suprimir a produção de espermatozoides de maneira semelhante.
Quanto tempo depois de parar a testosterona o espermograma pode voltar ao normal?
Varia de pessoa para pessoa. A literatura descreve recuperação na maioria dos homens dentro de alguns meses, mas o processo pode levar mais de um ano; por isso o acompanhamento com espermogramas seriados é importante.
Testosterona baixa não tratada também prejudica a fertilidade?
Hipogonadismo não tratado pode, em alguns casos, também afetar a fertilidade, mas por mecanismos diferentes dos da testosterona exógena. A decisão de tratar, e como tratar, cabe ao médico, considerando causa, sintomas e desejo reprodutivo de cada paciente.
Existe forma de tratar os sintomas de testosterona baixa sem perder a fertilidade?
Existem alternativas, como hCG isolado ou associado a outras medicações, capazes de elevar a testosterona mantendo parte do estímulo testicular. Cada caso exige avaliação e exames específicos antes de qualquer indicação.
"Boosters" de testosterona vendidos sem receita têm o mesmo risco?
A maioria dos suplementos vendidos como "boosters" não eleva a testosterona de forma relevante, mas alguns produtos de procedência duvidosa já foram encontrados com hormônios não declarados no rótulo, o que pode trazer o mesmo risco da testosterona exógena sem o acompanhamento médico correto.
Quem tem azoospermia por testosterona precisa de micro-TESE?
Nem sempre. A primeira conduta costuma ser suspender a testosterona externa e acompanhar a recuperação espontânea ou induzida por medicação; a micro-TESE entra em discussão quando não há recuperação depois de um tempo razoável de acompanhamento, sempre com avaliação individual.
Referências
- Brannigan RE, Hermanson L, Kaczmarek J, Kim SK, Kirkby E, Tanrikut C. Updates to male infertility: AUA/ASRM guideline (2024). J Urol. 2024;212(6):789-799. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39145501/
- Bhasin S, Brito JP, Cunningham GR, Hayes FJ, Hodis HN, Matsumoto AM, et al. Testosterone therapy in men with hypogonadism: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2018;103(5):1715-1744. Disponível em: https://doi.org/10.1210/jc.2018-00229
- Patel AS, Leong JY, Ramos L, Ramasamy R. Testosterone is a contraceptive and should not be used in men who desire fertility. World J Mens Health. 2019;37(1):45-54. Disponível em: https://doi.org/10.5534/wjmh.180036
- Liberto R, Katlowitz N, Sagalovich D, Davila J. Strategies for reversing exogenous testosterone-induced infertility. Cureus. 2025;17(9):e91975. Disponível em: https://doi.org/10.7759/cureus.91975
Dr. Igor Faria Dutra – Médico, CRM-RJ 52.87111-7 | RQE 29693. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

