Fertilidade Feminina

Câncer de mama: como preservar fertilidade?

Câncer de mama: como preservar fertilidade?

A oncofertilidade reúne cuidados para preservar fertilidade antes de tratamentos contra o câncer que podem afetar ovários, óvulos ou útero. No Outubro Rosa, essa conversa é especialmente importante porque parte das mulheres com câncer de mama ainda está em idade reprodutiva ou deseja manter a possibilidade de gestação no futuro.

Em resumo: preservação da fertilidade no câncer de mama deve ser discutida antes de iniciar quimioterapia, radioterapia pélvica ou cirurgias com impacto reprodutivo. As opções mais usadas são congelamento de óvulos, congelamento de embriões e, em situações selecionadas, tecido ovariano. A decisão precisa envolver oncologista e especialista em reprodução, sem atrasar indevidamente o tratamento oncológico.

O gancho desta pauta veio de um briefing editorial do Dr. Igor sobre um caso noticiado de maternidade após tecido ovariano congelado antes de tratamento oncológico. O caso chama atenção, mas não deve virar promessa. A mensagem útil é outra: quando há risco reprodutivo, a orientação precisa acontecer cedo.

O que é oncofertilidade?

Oncofertilidade é a área que integra oncologia e medicina reprodutiva para reduzir o impacto de tratamentos contra o câncer sobre a fertilidade. Ela não compete com o tratamento oncológico; trabalha junto dele para planejar, quando possível, uma estratégia antes do início da terapia.

Alguns tratamentos podem reduzir a reserva ovariana, antecipar insuficiência ovariana ou tornar uma gestação futura mais difícil. O grau de risco depende do tipo de câncer, idade, medicamentos, doses, radioterapia, cirurgia e plano terapêutico. Por isso, a pergunta deve ser feita logo após o diagnóstico: existe risco para a fertilidade e há tempo seguro para preservar?

Essa conversa também se conecta a temas já explicados no blog, como idade e fertilidade e baixa reserva ovariana. No câncer, porém, o relógio é clínico e oncológico: a prioridade é tratar a doença com segurança.

Quais opções podem ser discutidas?

O congelamento de óvulos é uma opção para mulheres que desejam preservar gametas sem formar embriões naquele momento. Em geral, envolve estimulação ovariana, coleta dos óvulos e vitrificação. O tempo disponível, a segurança hormonal no tipo de câncer e a urgência do tratamento precisam ser considerados.

O congelamento de embriões pode ser discutido quando há parceiro ou decisão de usar sêmen de doador, e quando a pessoa deseja formar embriões antes do tratamento. É uma técnica estabelecida, mas envolve decisões reprodutivas, éticas e legais que não devem ser apressadas sem aconselhamento.

O congelamento de tecido ovariano pode ser considerado em situações selecionadas, inclusive quando não há tempo para estimulação ovariana ou em pacientes pré-púberes. Ele exige cirurgia para retirada de tecido e posterior possibilidade de retransplante, e deve ser discutido em centros com experiência. Não é uma solução universal.

O tempo antes da quimioterapia importa?

Importa muito. As diretrizes recomendam que pacientes em idade reprodutiva sejam informadas sobre risco de infertilidade e opções de preservação o mais cedo possível, idealmente antes do início do tratamento gonadotóxico. Essa conversa precoce não significa adiar tratamento por conta própria.

Em muitos casos, protocolos de estimulação ovariana podem ser iniciados em momentos flexíveis do ciclo, reduzindo espera. Ainda assim, quem define a janela segura é a equipe oncológica em conjunto com a reprodução assistida. Quando o câncer exige início imediato, a preservação pode não ser viável naquele momento, e isso também precisa ser acolhido com clareza.

O ponto prático é não deixar a pergunta para depois da primeira sessão de quimioterapia. Se houver desejo de filhos no futuro, a avaliação deve entrar no plano desde o começo.

Câncer de mama muda a conversa?

Pode mudar. Em câncer de mama sensível a hormônios, a estimulação ovariana costuma exigir protocolos específicos para limitar exposição estrogênica, frequentemente com medicações associadas conforme avaliação médica. Essa é uma das razões para a decisão ser compartilhada entre oncologista e especialista em reprodução.

Também é importante separar preservação de fertilidade de autorização para engravidar. Congelar óvulos, embriões ou tecido não define quando uma gestação será segura. Depois do tratamento, a decisão sobre tentativa de gravidez depende do tipo de tumor, resposta ao tratamento, terapias em curso e liberação da equipe oncológica.

A preservação é um planejamento possível; não é garantia de bebê. Falar assim protege a paciente de falsas certezas e mantém o foco em escolhas informadas.

O que dizem as diretrizes

Diretrizes internacionais de oncologia e reprodução recomendam discutir risco de infertilidade com pacientes em idade reprodutiva antes de terapias potencialmente gonadotóxicas. Também orientam encaminhamento rápido para especialistas quando a pessoa tem interesse em preservar fertilidade.

A ASRM reconhece congelamento de óvulos e embriões como métodos estabelecidos de preservação. A ESHRE também inclui tecido ovariano entre opções de preservação feminina, com indicação dependente de idade, risco, urgência e contexto clínico. A NICE recomenda que serviços considerem criopreservação antes de tratamento oncológico quando houver condições clínicas e tempo adequados.

Todas convergem no ponto principal: a decisão deve ser individualizada, documentada e integrada ao cuidado oncológico. Nenhuma diretriz autoriza prometer gravidez futura.

Quando procurar avaliação

Procure avaliação assim que houver diagnóstico de câncer e possibilidade de tratamento que afete fertilidade, principalmente antes de quimioterapia, radioterapia pélvica ou cirurgia com risco para ovários e útero. Familiares também podem ajudar a levantar a pergunta quando a paciente está sobrecarregada pelo diagnóstico.

A consulta de oncofertilidade costuma revisar idade, reserva ovariana, tipo de tratamento previsto, urgência oncológica, desejo reprodutivo, presença ou não de parceiro, riscos do procedimento e alternativas possíveis. Em alguns casos, a melhor decisão será preservar. Em outros, será priorizar o início imediato do tratamento e planejar a conversa reprodutiva depois.

Para entender etapas de laboratório e transferência embrionária em outro contexto, o artigo sobre FIV passo a passo pode ajudar. A indicação, porém, depende da avaliação individual.

Perguntas frequentes

Toda mulher com câncer de mama precisa congelar óvulos?

Não. A necessidade depende de idade, reserva ovariana, tipo de tratamento, risco de infertilidade, desejo de gestação futura e janela segura antes da terapia oncológica. O essencial é oferecer a conversa, não empurrar uma decisão.

Congelar óvulos garante gravidez depois do câncer?

Não garante. O congelamento preserva uma possibilidade, mas o resultado futuro depende de idade no momento da coleta, número e qualidade dos óvulos, saúde após o tratamento, útero, espermatozoides ou embriões e liberação oncológica.

A preservação atrasa o tratamento do câncer?

Pode haver necessidade de alguns dias ou semanas, mas protocolos atuais procuram reduzir atrasos. A decisão sobre tempo seguro deve ser tomada com o oncologista. Se a urgência for alta, o tratamento do câncer vem primeiro.

Tecido ovariano é melhor que congelar óvulos?

Não é questão de melhor ou pior. Tecido ovariano pode ser opção quando não há tempo para estimulação ou em pacientes pré-púberes, mas envolve cirurgia e critérios próprios. Óvulos e embriões são opções estabelecidas em muitos cenários.

Posso decidir sobre fertilidade depois da quimioterapia?

A conversa pode continuar depois, mas algumas opções são mais efetivas antes da quimioterapia. Por isso, se houver desejo reprodutivo, a pergunta deve ser feita assim que o plano oncológico começar a ser definido.

Referências

  1. Oktay K, Harvey BE, Partridge AH, Quinn GP, Reinecke J, Taylor HS, et al. Fertility preservation in patients with cancer: ASCO Clinical Practice Guideline update. J Clin Oncol. 2018;36(19):1994-2001. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29620997/
  2. Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Fertility preservation in patients undergoing gonadotoxic therapy or gonadectomy: a committee opinion. Fertil Steril. 2019;112(6):1022-1033. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31843073/
  3. Anderson RA, Amant F, Braat D, D'Angelo A, Chuva de Sousa Lopes SM, Demeestere I, et al. ESHRE guideline: female fertility preservation. Hum Reprod Open. 2020;2020(4):hoaa052. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33225079/
  4. National Institute for Health and Care Excellence. Fertility problems: assessment and treatment. NICE guideline NG257. 2025. https://www.nice.org.uk/guidance/ng257

Dr. Igor Faria Dutra – Médico, CRM-RJ 52.87111-7 | RQE 29693. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

Dr. Igor Faria Dutra
Especialista em Reprodução Humana

Atua em infertilidade masculina e feminina, reprodução assistida e cirurgias microscópicas, em Ipanema — RJ.

CRM-RJ 52.87111-7 · RQE 29693

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