Em resumo: o congelamento de óvulos geralmente envolve avaliação, estimulação dos ovários, coleta e vitrificação dos óvulos maduros. Guardar essas células pode ampliar opções reprodutivas futuras, mas não assegura uma gravidez. O planejamento precisa considerar segurança, idade, expectativas e o tratamento necessário para utilizá-las depois.
Entender o percurso ajuda a transformar uma ideia abstrata em perguntas concretas para a consulta. Congelar óvulos não significa congelar embriões, nem iniciar uma gestação naquele momento. Também não é uma obrigação para quem pretende adiar a maternidade.
Este texto explica as etapas do procedimento habitual. Preservação antes de tratamento oncológico exige planejamento próprio, em conjunto com a equipe responsável pela doença.
O que é avaliado antes do congelamento de óvulos?
A consulta começa pelos planos reprodutivos, pela história clínica e pela avaliação das condições para realizar o tratamento. Antes dos exames, vale explicar se a intenção é adiar uma gravidez ou preservar a fertilidade diante de um risco médico.
O hormônio antimülleriano, conhecido como AMH, e a contagem de folículos antrais pela ultrassonografia ajudam a estimar a resposta dos ovários à estimulação. Não medem diretamente a qualidade dos óvulos e não preveem, sozinhos, uma futura gravidez, conforme a opinião da ASRM sobre reserva ovariana.
Um resultado baixo deve ser interpretado junto da idade e do contexto clínico. Não equivale automaticamente a infertilidade nem determina, isoladamente, que o procedimento seja obrigatório. Veja também o que a baixa reserva ovariana pode indicar.
É necessário estimular os ovários?
No método habitual de congelamento de óvulos maduros, sim. A estimulação utiliza medicamentos hormonais para favorecer o desenvolvimento de folículos, acompanhados por exames. A equipe ajusta o plano conforme a resposta e define o momento da maturação final e da coleta.
O documento da ASRM sobre preservação por indicação médica reforça que a estimulação depende de condições clínicas seguras e de tempo disponível. Em situações urgentes, existem protocolos que permitem iniciar sem esperar a próxima menstruação; isso exige coordenação médica e não deve ser organizado por conta própria.
Há técnicas de maturação de óvulos em laboratório que podem reduzir a estimulação em casos selecionados. Segundo a ASRM, exigem experiência específica e aconselhamento sobre resultados. Não são uma alternativa equivalente para qualquer pessoa que queira evitar injeções.
Como funciona a coleta e o armazenamento?
A coleta retira o líquido dos folículos por uma punção, habitualmente guiada por ultrassom transvaginal, com analgesia ou sedação conforme o planejamento clínico. No laboratório, a equipe identifica os óvulos e avalia sua maturidade.
É importante distinguir três informações: folículos vistos no ultrassom, óvulos recuperados e óvulos maduros efetivamente congelados. Esses números podem ser diferentes. O relatório do laboratório permite entender o resultado real do ciclo.
A vitrificação é uma técnica de resfriamento rápido utilizada para preservar os óvulos. O material fica armazenado em condições criogênicas controladas. A diretriz de preservação da fertilidade da ESHRE reconhece a criopreservação de óvulos como uma opção estabelecida.
Antes de começar, peça explicações sobre identificação e rastreabilidade do material, documentos de consentimento, manutenção do armazenamento e formas de contato com a clínica. Guarde uma cópia do relatório recebido após a coleta.
Congelar agora elimina a necessidade de FIV depois?
Não. Quando houver decisão de usar os óvulos, será necessário aquecê-los e realizar fertilização em laboratório, geralmente por ICSI, técnica que introduz um espermatozoide no óvulo. Depois, acompanha-se o desenvolvimento dos embriões e planeja-se a transferência.
Nem todo óvulo aquecido sobrevive, fertiliza ou origina um embrião capaz de resultar em nascimento. A diretriz da ASRM sobre criopreservação destaca as limitações das estimativas individuais e não estabelece um número universal de óvulos que assegure um filho.
A idade na coleta influencia o potencial dos óvulos preservados. Já a saúde e a idade no momento da gestação continuam relevantes para os riscos obstétricos. O congelamento não interrompe o envelhecimento do restante do organismo. Para entender o percurso posterior, leia FIV passo a passo.
O que dizem as diretrizes
- ESHRE: explicar opções, limites e cuidados de preservação antes de decidir.
- ASRM sobre reserva ovariana: usar os exames para contextualizar a resposta esperada, sem transformá-los em um teste definitivo de fertilidade.
- ASRM sobre resultados da criopreservação: evitar metas universais de óvulos ou previsões de nascimento apresentadas como certeza.
- Comitê de Ética da ASRM: discutir benefícios, riscos, incertezas e resultados do próprio serviço com transparência.
Uma pergunta útil para a consulta é: “Essa estimativa se refere a óvulos que sobrevivem, a gravidez ou a nascimento?”. São desfechos diferentes e não devem ser apresentados como sinônimos.
Quando procurar avaliação
A avaliação pode ajudar quem deseja compreender suas opções antes de adiar uma gravidez. Não exige assumir previamente o compromisso de congelar óvulos. Preferências pessoais, disponibilidade para o tratamento e possibilidade de não usar o material também fazem parte da decisão.
Se houver tratamento previsto com potencial de prejudicar a função ovariana, a conversa deve ocorrer antes de iniciá-lo, sempre em articulação com a equipe assistente. Não adie tratamento necessário sem orientação. O contexto está detalhado no artigo sobre preservação da fertilidade no câncer de mama.
A estimulação e a coleta têm riscos e exigem acompanhamento. Combine antecipadamente como contatar a equipe diante de sintomas ou dúvidas e quais cuidados seguir após a alta. A indicação depende da avaliação individual.
Perguntas frequentes
Preciso ter parceiro para congelar óvulos?
Não. O armazenamento dos óvulos não exige fertilização naquele momento. A escolha da origem dos espermatozoides fica para o planejamento de seu uso.
Um AMH normal significa que posso esperar sem preocupação?
Não permite essa conclusão. O AMH informa principalmente sobre quantidade e resposta esperada à estimulação; não funciona como prazo de validade da fertilidade.
É possível congelar sem a estimulação habitual?
Existem estratégias específicas, incluindo maturação in vitro, mas elas têm indicações e resultados próprios. A escolha requer avaliação em serviço com experiência, conforme a orientação da ASRM.
Vou precisar repetir a coleta?
Isso pode ser discutido depois de conhecer a resposta e o número de óvulos maduros obtidos. Uma nova coleta deve ter justificativa individual, com revisão das expectativas e do desgaste do tratamento.
Posso decidir não utilizar os óvulos?
Sim. O congelamento preserva uma possibilidade, sem obrigar seu uso. As condições de armazenamento e as decisões futuras sobre o material precisam constar do consentimento e ser esclarecidas com o serviço.
Referências
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Evidence-based outcomes after oocyte cryopreservation for donor oocyte in vitro fertilization and planned oocyte cryopreservation: a guideline. Fertil Steril. 2021;116:36-47. PubMed.
- ESHRE Guideline Group on Female Fertility Preservation; Anderson RA, Amant F, Braat D, et al. ESHRE guideline: female fertility preservation. Hum Reprod Open. 2020;2020(4):hoaa052. PubMed.
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Testing and interpreting measures of ovarian reserve: a committee opinion. Fertil Steril. 2020;114:1151-1157. PubMed.
- Ethics Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Planned oocyte cryopreservation to preserve future reproductive potential: an Ethics Committee opinion. Fertil Steril. 2024;121:604-612. PubMed.
- American Society for Reproductive Medicine. Fertility preservation in patients with medical indications: a committee opinion. 2026. Documento da ASRM.
- American Society for Reproductive Medicine. In vitro maturation: a committee opinion. 2021. Documento da ASRM.
Dr. Igor Faria Dutra – Médico, CRM-RJ 52.87111-7 | RQE 29693. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

