Fertilidade Feminina

Endometriose atrapalha a fertilidade?

Endometriose atrapalha a fertilidade?

Endometriose atrapalha a fertilidade?

Em resumo: endometriose e fertilidade se relacionam de formas diferentes. A doença pode dificultar a gravidez por inflamação, alterações tubárias, aderências, endometriomas ou dor que reduz relações no período fértil, mas muitas mulheres com endometriose engravidam. A melhor decisão depende de idade, sintomas, reserva ovariana, tempo de tentativa, espermograma e extensão da doença.

A dúvida sobre endometriose e fertilidade ganhou força em 2026 porque novas orientações internacionais passaram a enfatizar diagnóstico mais precoce, sem tratar a cirurgia como única porta de entrada para reconhecer a doença. Esse movimento é importante para quem tenta engravidar: esperar anos para investigar dor menstrual intensa, dor na relação ou infertilidade pode atrasar escolhas reprodutivas.

Mesmo assim, diagnóstico mais cedo não significa que toda paciente precisa operar ou partir direto para FIV. O caminho costuma ser individual. Em algumas mulheres, a prioridade é controlar dor e mapear a pelve; em outras, é acelerar investigação da infertilidade. Textos do blog sobre idade e fertilidade e FIV passo a passo ajudam a entender por que tempo reprodutivo e estratégia do casal precisam andar juntos.

Como a endometriose pode dificultar a gravidez?

A endometriose pode dificultar a gravidez por mais de um mecanismo. Lesões inflamatórias podem alterar o ambiente pélvico; aderências podem distorcer ovários e trompas; endometriomas podem afetar tecido ovariano; e a dor pode reduzir a frequência de relações no período fértil. Em doença mais avançada, a anatomia da pelve pode ficar menos favorável à captação do óvulo pela trompa.

Também existe o outro lado: a intensidade da dor nem sempre acompanha a dificuldade reprodutiva. Algumas pacientes com muita dor engravidam espontaneamente, enquanto outras descobrem endometriose durante investigação de infertilidade. Por isso, a avaliação não deve se basear apenas no sintoma isolado.

A investigação costuma considerar tempo de tentativa, idade, exames de ovulação, reserva ovariana, ultrassonografia especializada quando indicada, avaliação das trompas e espermograma. A pergunta não é só “existe endometriose?”, mas se ela é o principal fator reduzindo a chance do casal naquele momento.

Toda endometriose precisa de cirurgia antes de tentar engravidar?

Não. Cirurgia pode ser importante em casos selecionados, especialmente quando há dor relevante, suspeita de doença profunda, endometrioma com características que exigem esclarecimento, alteração anatômica importante ou necessidade de confirmação e tratamento no mesmo procedimento. Mas cirurgia não é uma resposta automática para toda infertilidade associada à endometriose.

Em endometriose mínima ou leve, a laparoscopia operatória pode melhorar a chance de gravidez em alguns cenários. Em doença profunda, a decisão é mais delicada: operar pode ajudar sintomas e anatomia, mas também pode trazer riscos cirúrgicos e atraso no tratamento reprodutivo. Em endometriomas, existe ainda a preocupação com reserva ovariana, especialmente quando há cistos bilaterais, cirurgias repetidas ou baixa reserva prévia.

Por isso, a decisão costuma comparar três caminhos: tentar espontaneamente por período definido, fazer cirurgia antes de tentar ou seguir para reprodução assistida. Nenhuma dessas opções é “a melhor” para todas. A idade da mulher e o tempo de infertilidade pesam muito nessa escolha.

Quando a FIV entra na conversa?

A FIV pode entrar quando há trompas comprometidas, fator masculino associado, baixa reserva ovariana, idade materna mais avançada, doença extensa, baixa chance de gravidez espontânea ou falha de tentativas anteriores. A ESHRE reconhece que técnicas de reprodução assistida podem ser usadas na infertilidade associada à endometriose, especialmente quando outros fatores coexistem ou quando tratamentos prévios falharam.

A FIV não elimina todos os efeitos possíveis da endometriose, mas pode contornar alguns obstáculos, como alteração tubária. Ainda assim, antes de iniciar, é importante avaliar se existe endometrioma, hidrossalpinge, dor importante, suspeita de adenomiose ou necessidade de preservar segurança durante a coleta dos óvulos.

Uma revisão recente sobre reprodução assistida observou piores resultados em alguns grupos com endometriose, incluindo redução de taxas de gravidez clínica e nascimento vivo em comparação com mulheres sem endometriose. Esse dado não deve ser lido como sentença individual. Ele reforça que o planejamento precisa ser realista e personalizado.

O que dizem as diretrizes

A diretriz ESHRE de 2022 afirma que a endometriose deve ser manejada considerando sintomas, infertilidade, idade, reserva ovariana, fatores do casal e preferências da paciente. O documento também reduziu o papel da laparoscopia como único padrão diagnóstico e incluiu recomendações específicas sobre infertilidade e preservação de fertilidade.

A ASRM orienta que a avaliação de infertilidade comece após 12 meses de tentativas, ou após 6 meses quando a mulher tem 35 anos ou mais. A mesma diretriz lembra que endometriose e aderências podem contribuir para infertilidade, mas a laparoscopia não deve ser rotina quando não há suspeita clínica ou indicação específica.

Outra opinião da ASRM sobre endometriose e infertilidade destaca que tratamento medicamentoso supressivo não aumenta fecundidade espontânea e pode apenas atrasar tratamentos mais efetivos quando o objetivo imediato é engravidar. Medicamentos hormonais podem ser úteis para dor, mas não substituem estratégia reprodutiva quando há infertilidade.

Quando procurar avaliação

Procure avaliação se há cólica incapacitante, dor profunda na relação, dor pélvica cíclica, dor ao evacuar ou urinar no período menstrual, dificuldade para engravidar, endometrioma conhecido ou histórico de cirurgia pélvica. Também vale antecipar a consulta se a parceira tem 35 anos ou mais e o casal tenta há 6 meses sem gravidez.

A consulta organiza prioridades: confirmar suspeita, mapear extensão, avaliar reserva ovariana, checar trompas quando indicado e investigar o fator masculino com espermograma. O artigo sobre ciclo irregular e ovulação mostra como ovulação também pode entrar na avaliação, mesmo quando a suspeita principal é endometriose.

A decisão final pode envolver acompanhamento, cirurgia, coito programado, inseminação, FIV ou preservação de fertilidade. A indicação depende da avaliação individual e deve equilibrar controle de sintomas, segurança e chance reprodutiva do casal.

Perguntas frequentes

Endometriose sempre causa infertilidade?

Não. Endometriose pode dificultar a gravidez, mas não significa infertilidade obrigatória. O impacto varia conforme extensão da doença, idade, trompas, reserva ovariana, presença de endometrioma, fator masculino e tempo de tentativa.

Quem tem endometriose deve tentar engravidar logo?

Depende. Em mulheres mais jovens, com boa reserva ovariana e poucos sintomas, pode haver espaço para tentativa espontânea por tempo definido. Em idade mais avançada, baixa reserva, trompa alterada ou infertilidade prolongada, esperar demais pode reduzir opções.

Endometrioma deve ser retirado antes da FIV?

Nem sempre. A decisão considera tamanho, sintomas, suspeita diagnóstica, acesso aos folículos, risco de infecção, cirurgias prévias e reserva ovariana. Retirar endometrioma pode ajudar em alguns casos, mas também pode reduzir tecido ovariano saudável.

Hormônio para endometriose aumenta a chance de engravidar?

Tratamentos hormonais podem melhorar dor, mas geralmente bloqueiam ovulação enquanto são usados. Quando o objetivo imediato é gravidez, eles não devem ser vistos como tratamento de fertilidade espontânea.

Endometriose pode voltar depois da cirurgia?

Pode haver recorrência de sintomas ou lesões ao longo do tempo. Por isso, cirurgia precisa ter indicação clara e fazer parte de um plano mais amplo, considerando dor, fertilidade, idade e risco de novas intervenções.

Referências

  1. Becker CM, Bokor A, Heikinheimo O, et al. ESHRE guideline: endometriosis. Hum Reprod Open. 2022;2022(2):hoac009. https://doi.org/10.1093/hropen/hoac009
  2. ESHRE. Endometriosis guideline. Issued 2 February 2022. https://www.eshre.eu/Guidelines-and-Legal/Guidelines/Endometriosis-guideline
  3. Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Fertility evaluation of infertile women: a committee opinion. Fertil Steril. 2021;116(5):1255-1265. https://www.asrm.org/practice-guidance/practice-committee-documents/fertility-evaluation-of-infertile-women-a-committee-opinion-2021/
  4. Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Endometriosis and infertility: a committee opinion. Fertil Steril. 2012;98(3):591-598. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22704630/
  5. Yang F, Yuan Y, Yang Y, et al. Association between endometriosis and adverse reproductive and perinatal outcomes in women undergoing assisted reproductive technology: a systematic review and meta-analysis. 2026. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41684928/

Dr. Igor Faria Dutra – Médico, CRM-RJ 52.87111-7 | RQE 29693. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

Dr. Igor Faria Dutra
Especialista em Reprodução Humana

Atua em infertilidade masculina e feminina, reprodução assistida e cirurgias microscópicas, em Ipanema — RJ.

CRM-RJ 52.87111-7 · RQE 29693

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