Em resumo: falha de implantação recorrente descreve transferências repetidas sem teste de gravidez positivo, em um contexto que justifica rever a investigação. Uma tentativa negativa não significa, sozinha, uma doença no útero. Idade dos óvulos, características dos embriões e histórico do tratamento ajudam a decidir os próximos passos. ASRM e ESHRE usam critérios diferentes; nenhuma delas recomenda um pacote indiscriminado de exames e tratamentos adicionais.
Imagem de capa ilustrativa, gerada por IA; não representa o laboratório do Dr. Igor.
O que é falha de implantação recorrente?
Não existe um número único aceito por todas as sociedades. A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) definiu, em opinião de comitê publicada em 2026, a falha de implantação recorrente (RIF, na sigla em inglês) como a falha de implantação do número estimado de blastocistos de boa qualidade necessário para alcançar 95% de chance cumulativa de um teste de gravidez positivo — na prática, isso costuma corresponder a três a seis transferências de embriões euploides sem sucesso, com variação conforme a idade quando os embriões não foram testados geneticamente.
Já a ESHRE, em recomendação de boas práticas publicada em 2023, usa um critério diferente: considerar investigação quando não houve implantação apesar de a chance cumulativa prevista para as transferências já realizadas ultrapassar 60%. Esses percentuais são critérios estatísticos das respectivas sociedades, não a chance pessoal de sucesso na próxima tentativa. Isso também significa que um resultado negativo isolado, especialmente em um primeiro ciclo, não costuma ser motivo de investigação extensa por si só.
Por que a implantação pode falhar mesmo com um embrião de boa qualidade?
A causa mais estudada é cromossômica: embriões aneuploides — com número de cromossomos alterado — têm potencial muito limitado de implantação sustentada ou nascimento vivo, e a frequência dessas alterações aumenta com a idade dos óvulos. A revisão de Ma e colaboradores aborda fatores embrionários, uterinos e outras hipóteses biológicas. Associação em pesquisas, porém, não comprova a causa em uma pessoa nem demonstra que tratar aquele marcador aumentará os nascimentos. Hipóteses imunológicas ou sobre o microbioma não justificam testes automáticos.
Boa aparência ao microscópio não comprova normalidade cromossômica. Mesmo um resultado euploide no PGT-A, isto é, compatível com o número esperado de cromossomos nas células analisadas, não garante implantação. A avaliação deve começar pelos dados do tratamento, sem atribuir culpa à paciente.
Quais exames fazem sentido investigar?
A revisão da história clínica e dos ciclos anteriores vem antes de novos testes. A equipe confere embriões transferidos, exames prévios, preparo do endométrio, medicações e eventuais dificuldades na transferência.
Conforme os achados, pode fazer sentido:
- Reavaliar a cavidade uterina e as trompas por imagem; histeroscopia é uma possibilidade, sobretudo diante de suspeita de alteração.
- Discutir cariótipo dos parceiros quando se consideram rearranjos cromossômicos.
- Considerar investigação de endometrite crônica, explicando as limitações dos critérios diagnósticos e da evidência de tratamento.
- Rever espessura endometrial e suporte hormonal. Progesterona e tireoide exigem interpretação no contexto, sem ajustes de medicação por conta própria.
A ESHRE recomenda atenção aos anticorpos antifosfolípides principalmente diante de fatores de risco ou história sugestiva. Isso não equivale a solicitar um painel de trombofilias para todas as pacientes. A discussão sobre fase lútea e fertilidade também ajuda a separar suporte hormonal de exames sem validação.
Quais exames e tratamentos não têm indicação comprovada?
Segundo ASRM e ESHRE, não há suporte para oferecer indiscriminadamente testes comerciais de receptividade endometrial, células NK, perfis imunológicos, microbioma uterino/vaginal ou fragmentação do DNA espermático como investigação específica de falha de implantação. A ausência de indicação nesse contexto não elimina outras indicações clínicas de um exame.
Também não se deve apresentar scratching endometrial, imunoglobulina intravenosa, G-CSF ou heparina como solução rotineira para melhorar a implantação. A investigação de endometrite crônica, por exemplo, não é sinônimo de pedir um painel comercial de microbioma.
Antes de aceitar uma intervenção adicional, pergunte: o resultado mudará a conduta? Existe benefício demonstrado em nascidos vivos para pacientes como eu? Quais são os riscos e as incertezas? Um teste biologicamente interessante pode ainda não ter utilidade clínica comprovada.
O teste genético do embrião (PGT-A) resolve a falha de implantação?
Não. No ensaio randomizado de Yan e colaboradores, publicado em 2021, participaram mulheres com três ou mais blastocistos de boa qualidade. Nesse grupo selecionado, a FIV sem PGT-A foi não inferior à FIV com PGT-A em nascidos vivos acumulados. Esse resultado não representa todos os perfis de infertilidade e não foi uma demonstração específica em pacientes com falha de implantação recorrente.
Na prática, isso quer dizer que oferecer PGT-A a pacientes com falha de implantação e embriões não testados pode ser discutido em decisão compartilhada — por exemplo, para reduzir o número de transferências de embriões aneuploides —, mas não deve ser apresentado como solução garantida para a falha de implantação em si. A decisão sobre fazer ou não PGT-A, assim como sobre transferir um ou dois embriões na tentativa seguinte, depende da avaliação individual de cada caso.
O que dizem as diretrizes
- ASRM: propõe um critério baseado na probabilidade cumulativa e na qualidade embrionária, com revisão detalhada dos ciclos antes de ampliar exames.
- ESHRE: prioriza decisão individualizada; algumas avaliações são recomendadas, outras apenas podem ser consideradas e várias não têm indicação de rotina.
- Limites: boa parte da evidência sobre falhas repetidas é observacional. Plausibilidade biológica não basta para recomendar uma terapia.
- Próxima tentativa: quando não há causa corrigível identificada, continuar o tratamento pode ser uma opção discutida, sem prometer sucesso nem impor intervenções adicionais.
Quando procurar avaliação
Uma única transferência sem sucesso, isoladamente, geralmente não indica investigação extensa. Já faz sentido conversar com o médico responsável sobre avaliação mais aprofundada depois de múltiplas transferências de embriões de boa qualidade — sobretudo quando testados geneticamente — sem gravidez, especialmente se a cavidade uterina, o preparo endometrial ou a história clínica ainda não foram revisados desde o início do tratamento. A avaliação do parceiro também pode ser relevante, assim como já é discutido em outros contextos de FIV passo a passo. Em todos os casos, a decisão sobre quais exames pedir e quando repetir uma tentativa depende da avaliação individual, não de um protocolo fixo para todo paciente.
Perguntas frequentes
Uma falha de implantação significa que o embrião era ruim?
Não necessariamente. Embriões com boa aparência morfológica e até já testados geneticamente também podem falhar — a aneuploidia relacionada à idade é a causa mais associada, mas fatores uterinos e outros também entram na análise.
Depois de quantas tentativas sem sucesso vale a pena investigar?
Não há um número único: a ASRM usa como referência técnica a falha do número de embriões necessário para 95% de chance cumulativa de implantação, enquanto a ESHRE usa 60%. Na prática, a avaliação individual com o médico responsável, considerando idade e histórico de cada ciclo, é o que define o momento.
Exame de receptividade endometrial ajuda a descobrir a causa?
Testes comerciais de array de receptividade endometrial não têm indicação de rotina comprovada para falha de implantação recorrente, segundo a opinião de comitê da ASRM. Isso pode ser reavaliado se novas evidências forem publicadas.
Fazer PGT-A garante que o próximo embrião vai implantar?
Não. O PGT-A fornece informação sobre os cromossomos das células analisadas; não avalia todas as condições necessárias à gravidez. Seus possíveis benefícios e limitações devem ser discutidos antes da decisão.
Imunoglobulina ou heparina ajudam na implantação?
Não há benefício comprovado que justifique seu uso rotineiro para falha de implantação. Heparina é um anticoagulante, não uma imunoglobulina. Uma indicação médica independente de anticoagulação não torna a imunoglobulina indicada nem autoriza automedicação.
O parceiro precisa repetir todos os exames?
Não automaticamente. A equipe deve revisar a avaliação do casal e decidir o que precisa ser atualizado. A repetição de um resultado negativo após transferência não justifica, sozinha, um pacote adicional de exames masculinos.
Referências
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Recurrent implantation failure: a committee opinion. Fertil Steril. 2026;126(2):277-93. Disponível em: https://www.asrm.org/practice-guidance/practice-committee-documents/recurrent-implantation-failure-a-committee-opinion-2026/
- ESHRE Working Group on Recurrent Implantation Failure. ESHRE good practice recommendations on recurrent implantation failure. Hum Reprod Open. 2023;2023(3):hoad023. Disponível em: https://doi.org/10.1093/hropen/hoad023
- Ma J, Gao W, Li D. Recurrent implantation failure: a comprehensive summary from etiology to treatment. Front Endocrinol. 2022;13:1061766. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fendo.2022.1061766
- Yan J, Qin Y, Zhao H, et al. Live birth with or without preimplantation genetic testing for aneuploidy. N Engl J Med. 2021;385(22):2047-58. Disponível em: https://doi.org/10.1056/NEJMoa2103613
Dr. Igor Faria Dutra – Médico, CRM-RJ 52.87111-7 | RQE 29693. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

