Em resumo: transferir um ou dois embriões na FIV exige comparar a chance de nascimento com o risco de gestação múltipla. A transferência de embrião único é preferida em muitas situações, especialmente quando o prognóstico é favorável. Transferir mais embriões não garante gravidez e pode aumentar os riscos para a gestante e os bebês.
Depois da coleta de óvulos e da formação dos embriões, surge uma dúvida compreensível: colocar mais embriões no útero aumenta a possibilidade de o tratamento dar certo? A resposta precisa considerar o percurso completo, inclusive possíveis transferências futuras, e não apenas o teste de gravidez da tentativa atual.
O que significa transferir um embrião de cada vez?
Significa levar ao útero apenas um dos embriões disponíveis naquela transferência. Quando há outros adequados para criopreservação, eles podem permanecer congelados para uso posterior. Isso permite discutir uma estratégia em etapas, em vez de utilizar simultaneamente todos os embriões disponíveis.
A escolha do momento e do estágio de desenvolvimento também faz parte do planejamento. Blastocisto é um estágio mais avançado do desenvolvimento embrionário em laboratório. O cultivo até esse estágio pode ajudar na seleção, mas nem todo embrião chega até ele; por isso, prolongar o cultivo não é uma solução automática para qualquer situação, conforme a opinião da ASRM sobre cultivo e transferência de blastocistos.
Quem ainda está conhecendo o tratamento pode consultar o guia de FIV passo a passo. Aqui, o foco é uma decisão específica dessa jornada: quantos embriões transferir.
Transferir dois embriões dobra a chance de gravidez?
Não se pode fazer essa conta. A chance depende das características dos embriões, do contexto clínico e da estratégia utilizada. Além disso, nascimento de bebê vivo e teste positivo são resultados diferentes.
A revisão Cochrane de Kamath e colaboradores encontrou uma distinção importante: em uma única transferência a fresco, o resultado pode favorecer a transferência dupla; ao comparar transferências únicas consecutivas com uma transferência dupla, a chance acumulada de nascimento pode ser semelhante, com menos gestações múltiplas. A certeza da evidência é limitada, e os estudos envolveram principalmente mulheres mais jovens com bom prognóstico.
Portanto, não é correto prometer a mesma chance a todas as pacientes. A comparação útil inclui a possibilidade real de congelar embriões, voltar para outra transferência e completar o tratamento. Uma taxa apresentada sem explicar o que foi contado pode confundir a decisão.
Por que evitar uma gravidez de gêmeos é importante?
Uma gestação gemelar pode evoluir bem, mas exige atenção porque apresenta riscos maiores do que uma gestação de bebê único. A ASRM destaca prematuridade, complicações relacionadas à hipertensão da gestação e diabetes gestacional entre as preocupações associadas à gravidez múltipla.
O objetivo de discutir esses riscos é permitir uma escolha informada, sem transformar o desejo de ter filhos em culpa. Ter gêmeos não deve ser apresentado como uma forma simples de concluir a família em menos tempo. A conversa precisa incluir o acompanhamento obstétrico e as possíveis necessidades dos recém-nascidos, não apenas a etapa de laboratório.
Transferir um embrião reduz muito o risco de gestação múltipla, mas não o elimina: um embrião pode se dividir e originar gêmeos idênticos. Esse fenômeno é diferente da implantação de embriões distintos e também é abordado pela ASRM.
O que dizem as diretrizes
- ESHRE: favorece a transferência de embrião único. Idade, características embrionárias ou falhas anteriores, considerados isoladamente, não justificam automaticamente transferir mais embriões. Parte das recomendações tem evidência de baixa certeza.
- ASRM/SART: recomenda transferência única em situações de prognóstico favorável e quando se transfere embrião classificado como euploide, isto é, com número esperado de cromossomos no teste realizado. Esse resultado não garante implantação nem ausência de todas as doenças.
- Cochrane: reforça a importância de comparar resultados acumulados, reconhecendo os limites dos estudos e a redução de gravidez múltipla com transferências únicas consecutivas.
- CFM: estabelece limites éticos para a prática no Brasil. Um teto permitido não é uma meta clínica a ser atingida.
O que o CFM permite no Brasil?
Segundo a Resolução CFM nº 2.320/2022, o limite é de até dois embriões para mulheres com até 37 anos e até três para mulheres acima dessa idade. Para embriões euploides ao diagnóstico genético, o limite é de até dois, independentemente da idade. Na doação de óvulos, considera-se a idade da doadora no momento da coleta.
Esses limites não significam que a transferência máxima seja a melhor escolha. A norma brasileira e as recomendações clínicas internacionais têm funções diferentes: estar dentro do permitido não dispensa discutir segurança, prognóstico e alternativas. O consentimento deve refletir uma conversa compreendida pela paciente, e não apenas a assinatura de um formulário.
Quando procurar avaliação
A quantidade de embriões deve ser discutida antes da transferência, com o médico e a equipe de embriologia. Vale levar perguntas objetivas à consulta:
- A estimativa apresentada é por transferência ou considera o tratamento completo?
- Existem embriões adequados para congelamento e uso posterior?
- Que condição clínica torna uma gestação múltipla especialmente arriscada?
- Qual é a justificativa para a quantidade proposta neste caso?
Falhas anteriores merecem revisão do tratamento, mas não tornam a transferência dupla uma resposta obrigatória. Da mesma forma, problemas que precisam ser avaliados antes da transferência não são resolvidos simplesmente acrescentando embriões. Um exemplo está no artigo sobre hidrossalpinge e FIV.
A indicação depende da avaliação individual. A consulta deve ajudar a compreender opções e limites, sem promessa de gravidez nem pressão para decidir rapidamente.
Perguntas frequentes
Se existe apenas um embrião, ainda pode haver transferência?
Pode, se ele for considerado adequado e houver condições clínicas para o procedimento. Ter apenas um disponível não significa ausência de possibilidade, mas também não permite prever o resultado.
Um embrião com boa aparência garante gravidez?
Não. A avaliação morfológica ajuda a selecionar embriões, mas aparência não equivale a certeza de implantação. Tampouco substitui todos os aspectos da avaliação clínica ou genética.
Embrião euploide precisa ser transferido junto com outro?
Não. A orientação da ASRM/SART é transferir um embrião euploide. O limite brasileiro permitido não constitui recomendação de usar a quantidade máxima.
Uma transferência sem gravidez significa que faltou embrião?
Não é possível concluir isso. O resultado isolado não identifica a causa da falha. Antes de mudar a estratégia, é necessário revisar o contexto, sem presumir que acrescentar embriões resolverá o problema.
A escolha considera apenas a idade atual da paciente?
Não. Em transferências de embriões congelados, a idade na obtenção dos óvulos e as características embrionárias também importam. A saúde atual de quem vai gestar continua relevante para avaliar os riscos da gravidez.
Referências
- ESHRE Guideline Group on the Number of Embryos to Transfer; Alteri A, Arroyo G, Baccino G, et al. ESHRE guideline: number of embryos to transfer during IVF/ICSI. Hum Reprod. 2024;39(4):647-657. PubMed.
- Practice Committees of the ASRM and SART. Guidance on the limits to the number of embryos to transfer: a committee opinion. Fertil Steril. 2021;116:651-654. ASRM.
- Kamath MS, Mascarenhas M, Kirubakaran R, Bhattacharya S. Number of embryos for transfer following in vitro fertilisation or intra-cytoplasmic sperm injection. Cochrane Database Syst Rev. 2020;8:CD003416. PubMed.
- Practice Committee of the ASRM. Multiple gestation associated with infertility therapy: a committee opinion. Fertil Steril. 2022;117:498-511. ASRM.
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.320/2022: normas éticas para utilização das técnicas de reprodução assistida. Brasília: CFM; 2022. Publicação oficial.
- Practice Committees of the ASRM and SART. Blastocyst culture and transfer in clinically assisted reproduction: a committee opinion. Fertil Steril. 2018;110:1246-1252. ASRM.
Dr. Igor Faria Dutra – Médico, CRM-RJ 52.87111-7 | RQE 29693. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

