Tratamentos de Reprodução

Hiperestimulação ovariana: quando buscar ajuda?

Hiperestimulação ovariana: quando buscar ajuda?
Em resumo: hiperestimulação ovariana é uma complicação possível da estimulação dos ovários. Inchaço que piora, vômitos e redução da urina exigem contato com a equipe; falta de ar ou dor no peito pedem atendimento de urgência. O risco pode ser reduzido com planejamento e acompanhamento, mas não deve ser considerado inexistente.

Quem está fazendo fertilização in vitro costuma receber muitas informações sobre injeções, ultrassons e coleta de óvulos. Também precisa saber como agir se surgirem sintomas. Conhecer os sinais de alerta ajuda a procurar assistência sem transformar qualquer desconforto em diagnóstico.

Este texto explica a síndrome de hiperestimulação ovariana, também chamada SHO ou OHSS. Para entender onde a estimulação se encaixa no tratamento, veja o passo a passo da FIV.

O que é a síndrome de hiperestimulação ovariana?

É uma reação associada ao tratamento para estimular os ovários, que pode repercutir além deles. Substâncias liberadas nesse contexto aumentam a passagem de líquido dos vasos para outros espaços, inclusive o abdome. Por isso, a avaliação considera sintomas, circulação e função dos órgãos, e não apenas o tamanho dos ovários. A diretriz do RCOG descreve essa distinção. [1]

A quantidade de folículos no ultrassom, isoladamente, não confirma a síndrome. Da mesma forma, uma barriga inchada não permite classificá-la em casa. A equipe precisa interpretar o quadro e considerar outras causas de dor ou mal-estar.

Quem precisa de atenção ao risco antes da estimulação?

Segundo a ASRM, AMH elevado, resposta ovariana prevista como alta e síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP), antes chamada de síndrome dos ovários policísticos (SOP), justificam aconselhamento específico. Esses fatores orientam prevenção; não significam que a pessoa necessariamente desenvolverá a complicação. [2]

Os exames de reserva ovariana ajudam a estimar a resposta às medicações. Não são um placar de saúde ou uma previsão individual de gravidez. Pergunte como os resultados influenciam o planejamento do ciclo, em vez de comparar seu laudo com o de outra paciente.

Como a equipe pode reduzir o risco?

A prevenção começa na escolha do protocolo e continua durante o acompanhamento. A ASRM recomenda individualizar a dose de gonadotrofinas e considerar protocolos com antagonista de GnRH quando há preocupação com hiperestimulação. A escolha do medicamento que desencadeia a maturação final dos óvulos também faz diferença. [2]

A ESHRE recomenda, em pacientes sob risco, um gatilho com agonista de GnRH associado ao congelamento de todos os embriões, quando clinicamente apropriado. Isso permite planejar a transferência em outro momento. Não se trata de uma receita para todos os ciclos: protocolo, resposta e plano reprodutivo precisam ser considerados juntos. [3]

Nenhuma dessas informações autoriza trocar injeções ou alterar horários por conta própria. Leve dúvidas à equipe antes de qualquer mudança. Uma orientação recebida por outra pessoa pode pertencer a uma etapa ou a um protocolo completamente diferente.

Por que adiar a transferência de embriões?

Adiar pode ser uma medida de segurança. A gestação no mesmo ciclo pode contribuir para a forma tardia da síndrome. Congelar os embriões e programar a transferência depois reduz esse componente do risco, mas não elimina a necessidade de observar sintomas após a coleta. [2,3]

Vale separar decisões diferentes: o momento da transferência e a quantidade de embriões transferidos. A segunda questão está explicada em transferir um ou dois embriões na FIV. Adiar não deve ser interpretado, por si só, como fracasso do tratamento.

O que dizem as diretrizes

Na prática, isso significa sair da consulta sabendo quem procurar, quais mudanças comunicar e como obter atendimento fora do horário habitual. Peça que as instruções sejam registradas de forma que você consiga consultá-las depois.

Quando procurar avaliação

Avise a equipe se o inchaço aumentar, houver vômitos persistentes, dor em piora ou diminuição da urina. Procure urgência diante de falta de ar, dor no peito, desmaio ou dor abdominal intensa. Se não conseguir falar com a clínica, procure um serviço de urgência e informe que realizou tratamento de fertilidade. Esses sinais não devem aguardar a próxima consulta de rotina. [1]

A avaliação também pode investigar outras complicações: nem todo sintoma após a coleta é hiperestimulação. O tratamento depende da gravidade, podendo exigir acompanhamento ambulatorial ou hospitalar. A indicação depende da avaliação individual. [1]

Para facilitar a conversa, tenha à mão os nomes das medicações, a data do gatilho e da coleta, o início dos sintomas e a evolução percebida. Não espere reunir todos esses dados para buscar ajuda diante de um sinal importante.

Perguntas frequentes

Se tive poucos sintomas, posso dispensar o retorno?

Não decida isso por conta própria. Confirme com a equipe o acompanhamento previsto e mantenha o canal de contato. A melhora percebida deve ser comunicada, assim como qualquer piora. [1]

AMH alto é motivo para desistir da FIV?

Não é uma conclusão automática. O resultado ajuda a planejar uma estimulação mais segura e precisa ser interpretado no contexto clínico. Peça uma explicação sobre como ele modifica o protocolo proposto. [2,3]

Congelar todos os embriões garante que não haverá síndrome?

Não. A estratégia reduz especialmente o risco associado à gestação naquele ciclo, mas sintomas ainda podem ocorrer. Por isso, o acompanhamento após a coleta continua necessário. [3]

A prevenção é igual no congelamento de óvulos?

O congelamento de óvulos também envolve estimulação, e a diretriz ESHRE contempla planejamento de segurança para preservação da fertilidade. A ausência de transferência embrionária não dispensa avaliar a resposta ovariana. [3]

O que perguntar antes de começar?

Pergunte como será o monitoramento, quais resultados podem mudar o plano e quem atende intercorrências. Também esclareça como eventual adiamento da transferência será explicado. O NICE trata o acompanhamento e os protocolos de prevenção como partes do cuidado. [4]

Referências

  1. Hamoda H, Drakeley AJ, Brian K, Evbuomwan IO, Mathur R; Royal College of Obstetricians and Gynaecologists. The Management of Ovarian Hyperstimulation Syndrome Green-Top Guideline No. 5. BJOG. 2026;133(7):e50-e69. doi:10.1111/1471-0528.70195.
  2. Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Prevention of moderate and severe ovarian hyperstimulation syndrome: a guideline. Fertil Steril. 2024;121:230-245. Diretriz ASRM.
  3. ESHRE Guideline Group on Ovarian Stimulation; Ata B, Bosch E, Broer S, et al. ESHRE guideline: ovarian stimulation for IVF/ICSI: an update in 2025. Hum Reprod. 2026;41(4):498-514. doi:10.1093/humrep/deag018. Documento integral atualizado.
  4. National Institute for Health and Care Excellence. Fertility problems: assessment and treatment. NICE guideline NG257. Londres: NICE; 2026. Procedimentos durante FIV: monitoramento e prevenção.

Dr. Igor Faria Dutra – Médico, CRM-RJ 52.87111-7 | RQE 29693. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

Dr. Igor Faria Dutra
Especialista em Reprodução Humana

Atua em infertilidade masculina e feminina, reprodução assistida e cirurgias microscópicas, em Ipanema — RJ.

CRM-RJ 52.87111-7 · RQE 29693

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