A investigação das perdas gestacionais recorrentes costuma começar pela mulher, mas o homem também pode precisar ser avaliado. Isso não significa procurar um culpado: significa olhar o casal como unidade reprodutiva, especialmente quando já ocorreram duas ou mais perdas, quando há alteração no espermograma ou quando a história sugere fator masculino.
Em resumo: perdas gestacionais recorrentes podem ter causas embrionárias, uterinas, hormonais, imunológicas, genéticas e também fatores masculinos. A avaliação do parceiro pode incluir história clínica, exame físico, espermograma, cariótipo em situações selecionadas e teste de fragmentação do DNA espermático quando indicado. A decisão depende da história do casal e não substitui a investigação feminina.
A pergunta é atual porque a ASRM atualizou em 2026 sua opinião de comitê sobre perda gestacional recorrente, reforçando que esse quadro é uma condição própria, diferente de infertilidade comum, e que merece avaliação estruturada. Para o Blog Dica Fértil, o ponto prático é simples: quando o casal vive perdas repetidas, restringir a conversa apenas ao útero ou aos ovários pode deixar uma parte relevante da história sem resposta.
O que são perdas gestacionais recorrentes?
Perdas gestacionais recorrentes são, em geral, duas ou mais perdas de gravidez. A definição exata pode variar entre sociedades, mas a ASRM considera perda gestacional recorrente a perda espontânea de duas ou mais gestações, excluindo gestação molar e ectópica. A entidade também usa o limite de menos de 22 semanas para o escopo do documento.
Isso não quer dizer que toda perda isolada precise de uma bateria ampla de exames. Perdas esporádicas são frequentes, e a própria ASRM destaca que cerca de 50% a 60% dos abortamentos de primeiro trimestre estão ligados a alterações cromossômicas do embrião, especialmente relacionadas à idade materna. Já quando as perdas se repetem, a chance de haver um fator investigável aumenta, e a avaliação passa a ser mais organizada.
Nesse contexto, o homem entra na conversa por três caminhos principais: genética, qualidade espermática e condições clínicas que podem afetar o espermatozoide. O espermograma continua sendo importante, mas ele não mostra tudo; quantidade, motilidade e morfologia não medem diretamente integridade do DNA espermático.
Por que avaliar o parceiro masculino?
Avaliar o parceiro masculino pode mudar a condução quando há perdas gestacionais recorrentes, falhas repetidas de tratamento, espermograma alterado, varicocele clínica, idade paterna avançada ou antecedentes familiares sugestivos de alteração genética. A diretriz AUA/ASRM de infertilidade masculina recomenda considerar avaliação do homem em casais com falhas de reprodução assistida ou perdas recorrentes, incluindo cariótipo e fragmentação do DNA espermático em cenários apropriados.
O cariótipo procura alterações cromossômicas equilibradas em um dos parceiros. A pessoa pode ser saudável e, ainda assim, carregar uma alteração que aumenta a chance de embriões cromossomicamente desequilibrados. Quando isso acontece, o casal precisa de aconselhamento genético para entender riscos e alternativas, sem promessa de resultado.
A fragmentação do DNA espermático é outro ponto. Ela avalia quebras no material genético do espermatozoide e pode estar associada a infertilidade, perdas gestacionais, varicocele, inflamação, tabagismo, calor, idade e estresse oxidativo. O exame não deve ser usado como triagem indiscriminada para todos os casais, mas pode ser útil quando a história clínica justifica a pergunta.
Fragmentação do DNA é sempre a explicação?
Não. Fragmentação do DNA espermático não explica todas as perdas e não deve ser transformada em diagnóstico único. Um resultado alterado precisa ser interpretado com o restante da avaliação: idade da mulher, reserva ovariana, histórico de perdas, análise de material de aborto quando disponível, anatomia uterina, exames hormonais, trombofilias específicas quando indicadas e investigação genética do casal.
A diretriz da ESHRE sobre perda gestacional recorrente e a opinião ASRM 2026 mostram que a avaliação precisa ser ampla, mas seletiva. Isso é importante porque muitos exames oferecidos no mercado têm utilidade limitada, e tratamentos empíricos podem gerar custo, ansiedade e falsa sensação de controle.
Quando a fragmentação está elevada, a conduta também não é automática. O médico pode procurar causas tratáveis, como varicocele clínica, infecções, exposição a calor, tabaco, uso de anabolizantes ou hábitos que aumentem estresse oxidativo. Em alguns casais, a reprodução assistida pode entrar na discussão; em outros, a prioridade é corrigir fatores masculinos antes de decidir o próximo passo.
ICSI resolve o problema masculino?
A ICSI, técnica em que um espermatozoide é injetado dentro do óvulo, pode ser importante em fator masculino significativo. Mas ela não deve ser vista como solução universal para toda perda gestacional ou para toda dúvida sobre espermatozoide. A opinião ASRM 2026 sobre ICSI em indicações sem fator masculino lembra que o aumento de fertilização em alguns cenários não se traduz necessariamente em maior nascimento vivo.
Essa diferença é essencial. Em reprodução assistida, o objetivo não é apenas formar embriões no laboratório; é chegar a uma gestação saudável quando isso for possível. Por isso, antes de assumir que a ICSI resolve tudo, o casal precisa entender se existe fator masculino real, qual a gravidade, se há causa tratável e como essa informação muda a estratégia.
Para quem já passou por perdas, essa conversa costuma ser emocionalmente difícil. O papel da avaliação masculina não é deslocar a culpa para o homem. É reduzir pontos cegos, organizar hipóteses e evitar que o casal repita tratamentos sem investigar fatores relevantes.
O que dizem as diretrizes
- A ASRM define perda gestacional recorrente como duas ou mais perdas espontâneas e recomenda avaliação própria, distinta da investigação de infertilidade comum.
- A ASRM recomenda análise cromossômica do tecido da perda, quando viável, como uma etapa útil para orientar a investigação do casal.
- A diretriz AUA/ASRM de infertilidade masculina orienta considerar avaliação do homem em casais com perdas recorrentes, incluindo cariótipo e fragmentação do DNA espermático quando indicados.
- A ESHRE reforça que a investigação da perda gestacional recorrente deve ser estruturada, evitando exames e tratamentos sem benefício demonstrado.
Quando procurar avaliação
O casal deve procurar avaliação quando houver duas ou mais perdas gestacionais, uma perda tardia, histórico de perdas com embriões cromossomicamente normais, alteração no espermograma, varicocele clínica, uso de testosterona ou anabolizantes, idade paterna avançada ou falhas repetidas em tratamentos de reprodução assistida.
Também vale discutir o tema quando a investigação feminina veio sem explicação convincente. Nesses casos, avaliar o parceiro pode incluir história clínica, exame físico, espermograma, exames hormonais em situações selecionadas, cariótipo, investigação de varicocele clínica e teste de fragmentação do DNA espermático. A indicação depende da avaliação individual.
Para aprofundar temas relacionados, veja também os artigos sobre fragmentação do DNA espermático, varicocele e espermograma e mitos sobre infertilidade masculina.
Perguntas frequentes
Depois de quantas perdas o casal deve investigar?
Em muitas diretrizes, duas ou mais perdas já justificam avaliação de perda gestacional recorrente. A profundidade da investigação depende da idade, da semana da perda, dos exames anteriores e do histórico do casal.
O espermograma normal exclui fator masculino?
Não. O espermograma avalia concentração, motilidade e morfologia, mas não mede diretamente cariótipo, fragmentação do DNA espermático ou todos os fatores clínicos que podem afetar o espermatozoide.
Todo homem precisa fazer fragmentação do DNA?
Não. O exame é mais útil quando existe indicação clínica, como perdas recorrentes, falhas repetidas de tratamento, varicocele clínica ou infertilidade sem explicação após avaliação inicial.
Cariótipo é o mesmo que espermograma?
Não. O cariótipo avalia os cromossomos da pessoa. O espermograma avalia características do sêmen. Em perdas recorrentes, os dois podem responder perguntas diferentes.
Se a fragmentação vier alta, a FIV com ICSI resolve?
Não necessariamente. A ICSI pode ser indicada em alguns casos de fator masculino, mas não garante gravidez nem evita todas as perdas. Primeiro é preciso entender causa, contexto e alternativas.
A investigação masculina substitui a feminina?
Não. A avaliação deve ser do casal. Útero, ovulação, fatores hormonais, imunológicos, genéticos e masculinos podem coexistir, e a conduta precisa integrar essas informações.
Referências
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Recurrent pregnancy loss: a committee opinion. Fertil Steril. 2026;125:1023-1041. https://www.asrm.org/practice-guidance/practice-committee-documents/recurrent-pregnancy-loss-a-committee-opinion-2026
- Schlegel PN, Sigman M, Collura B, et al. Diagnosis and treatment of infertility in men: AUA/ASRM guideline part I. Fertil Steril. 2021;115:54-61. https://www.asrm.org/practice-guidance/practice-committee-documents/diagnosis-and-treatment-of-infertility-in-men-auaasrm-guideline-part-i-2020/
- ESHRE Guideline Group on Recurrent Pregnancy Loss. ESHRE guideline: recurrent pregnancy loss. European Society of Human Reproduction and Embryology. 2023. https://www.eshre.eu/guidelines-and-legal/guidelines/recurrent-pregnancy-loss
- Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Intracytoplasmic sperm injection for nonmale factor indications: a committee opinion. Fertil Steril. 2026;126:49-56. https://www.asrm.org/practice-guidance/practice-committee-documents/intracytoplasmic-sperm-injection-for-nonmale-factor-indications-a-committee-opinion-2026/
Dr. Igor Faria Dutra – Médico, CRM-RJ 52.87111-7 | RQE 29693. Conteúdo informativo; não substitui consulta médica.

